Depois do VAR, o futebol nunca mais será o mesmo

O futebol vive da mais pura explosão de emoções. Após um gol, o êxtase coletivo toma conta das arquibancadas, e o festejo incontido do artilheiro encontra eco na torcida.

São momentos assim que o VAR tende a extirpar.

Árbitro recorre ao VAR em partida entre o Bayern de Munique e o Hoffenheim, em 2018

Foi uma das cenas mais curiosas da atual temporada. Na partida entre Werder Bremen e Paderborn pela 14ª rodada do campeonato alemão, já nos acréscimos e com o placar de 0 a 0, o árbitro Sascha Stegemann anulou um gol marcado por Sven Michel, do Paderborn, por suposta posição de impedimento do atacante. A torcida do Werder Bremen respirou aliviada enquanto o pequeno grupo de torcedores do caçula dava vazão à sua frustração. Dois minutos mais tarde, veio o veredicto do VAR. Após análise da linha calibrada, o árbitro revisou sua decisão inicial e validou o gol que determinou a vitória do Paderborn por 1 a 0, provocando imediata reversão de emoções dos fãs presentes no Weser Stadion. Haja coração!

Desde a sua implementação na Bundesliga, em 2017, o Video Assistent Referee (VAR) é alvo de acaloradas discussões. Recente pesquisa feita pela revista Kicker em parceria com o Fair Play FC, um clube de torcedores que luta pela integridade no futebol profissional alemão, apontou que aproximadamente 50% dos mais de 150 mil aficionados entrevistados são favoráveis à nova tecnologia, enquanto pouco mais de 40% manifestaram seu voto contrário.

A maior crítica diz respeito à sua aplicação prática: 71% dos torcedores entendem que é péssima; 62% afirmam que o VAR retira as emoções do futebol; e 78% defendem que os lances polêmicos sejam mostrados no telão do estádio.

Se de um lado essa inovadora tecnologia é um instrumento poderoso para corrigir decisões equivocadas do juiz e torna o futebol mais justo, do outro, tende a eliminar a magia, o imponderável, o insólito, o surpreendente, o imprevisível – marcas que estão na própria origem do futebol e que, há mais de cem anos, caracterizam esse esporte.

Quem vê os jogos pela TV ao menos recebe uma explicação do comentarista sobre o motivo da intervenção do VAR em determinada jogada, que é mostrada ao telespectador repetidamente de diversos ângulos. Já para o torcedor presente no estádio, que muitas vezes não faz ideia do que está sendo questionado em campo, resta apenas aguardar por alguns minutos a decisão arbitral. Na Bundesliga, as jogadas polêmicas que requisitam a utilização do VAR não são mostradas no telão.

A Federação Alemã de Futebol pretende dar o seu aval para que num futuro próximo as imagens de cenas do jogo sob análise do assistente de vídeo sejam mostradas. Essa medida evitará que o torcedor na arquibancada fique sem saber o que rola no gramado, como acontece atualmente.

Entretanto, Jochen Drees, ex-juiz e um dos responsáveis pelo projeto VAR, faz uma ressalva: "Na Bundesliga ainda não é possível mostrar as imagens no telão porque nem todos os estádios dispõem da necessária infraestrutura tecnológica. Não queremos mostrar as imagens em alguns estádios e em outros não."

O futebol vive dos momentos da mais pura explosão de emoções, especialmente daqueles torcedores frequentadores assíduos que lotam as arenas na Alemanha. O êxtase coletivo faz parte das arquibancadas. A euforia desmedida pelo gol ressoa no estádio tal qual uma onda avassaladora de júbilo. O festejo incontido do artilheiro encontra eco na massa torcedora, que, tomada por forte paixão, responde com seu incontido grito: Tooor!

São esses momentos que o VAR tende a extirpar do futebol – o grito de gol com o freio de mão puxado, em vez do festejo pela bola no fundo das redes, a espera angustiante da confirmação ou não do tento. O momento mais glorioso desse esporte acaba sendo degradado à mera variante (perdão pelo trocadilho) de apenas mais um lance do jogo.

Nunca é demais lembrar que pela terceira temporada consecutiva se registra uma tendência decrescente no público médio por partida do campeonato alemão. Na temporada 17/18 foram, em média, 43.879 espectadores por jogo. Desde então, os números estão caindo. Foram 42.738 na campanha passada, e atualmente são apenas 40.500. Coincidência ou não, a queda de público acontece desde a implantação do VAR.

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COLUNA HALBZEIT


Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no Twitter, Facebook e no site Bundesliga.com.br

 


fonte: DW

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